sábado, setembro 03, 2011

Day 25: A book you used to hate but now love

A Bíblia. Porque eu li antes este livro:



Geração

Ele fala sozinho. Nenhum ser humano foi ainda criado para ouvi-lo e os outros seres divinos a quem raramente irá se dirigir, quase sempre de passagem, mal parecem estar dentro de seu círcuo de atenção - espectadores na melhor das hipóteses, não colaboradores.

No princípio, Deus criou os céus e a terra. [...] [Gênesis, 1:1-25]

Ele fala para si mesmo, mas não sobre si. Ele nada diz sobre quem é ou o que pretende, e suas palavras são abruptas, sem nenhuma intenção de comunicar nada a ninguém, muito menos explicar nada, mas simplesmente decretar.
A cena não tem narrador. Não é apresentada como uma visão referendada por algum profeta que teve o privilégio de assistir ao trabalho de Deus. Mesmo assim, o efeito é o de algo ouvido atrás da porta, que se espiou escondido. Entramos em cena com a obra em andamento, e o que surpreende é que o trabalhador , apesar de estar falando consigo mesmo, não demonstra a menor hesitação. Não está cismando. Tem algo muito preciso em mente, e cada estágio de seu projeto conduz, sem pressa mas com extrema economia e de forma extremamente direta, ao estágio seguinte. Primeiro, luz. Depois, a cúpula do céu, abrindo uma gigantesca bolha no caos de água: pagua acima, água abaixo. Depois, a separação das águas inferiores para que possa surgir a terra seca. Depois a vegetação da terra recém-exposta. Depois, no quarto dia, o sol, a lua, as estrelas, para fornecer maisluz e permitir o cálculo do tempo; no quinto dia, as criaturas vivas do mar e do ar; e no sexto dia, os seres da terra.[...]

Destruidor
"Porque me arrependo de o haver feito"
Gênesis, 4-11

[...] O relato "eloísta" (de "Deus") do primeiro ato da geração humana (5:1-3) difere em diversos pontos do relato "javeísta" (do "Senhor") que precede a história de Caim e Abel. Leitores atentos poderão notar que [...] o relato de "Deus" faz da reprodução a imagem da criatividade divina e, coerentemente, omite qualquer menção ao papel da mulher: "No dia em que Deus criou o homem, À semelhança de Deus o fez; homem e mulher os criou, e os abençoou, e lhes chamou pelo nome de Adão, no dia em que foram criados. Viveu Adão 130 anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem" (5:1-3). O relato "do Senhor", ao contrário, começa com a relação sexual - "Coabitou o homem com Eva, sua mulher." (4:1) - e omite qualquer menção à semelhança entre o divino e o humano.[...]

O que torna Deus divino?

Deus [...] é no sentido mais básico da palavra o protagonista, o proto agonistes ou "primeiro ator" da Bíblia. Ele não entra na cena humana. Ele cria a cena humana, na qual entra depois. Cria o antagonismo humano que ao interagir com ele dá forma a toda a ação subsequente. Esse é o seu traço distintivo primeiro e mais óbvio.
Se a precedência de Deus faz seu antagonista humano especialmente dependente dele, todavia é verdade também que Deus é especialmente dependente de seu antagonista humano, e essa dependência torna mais complicada a tarefa a que nos propomos - explicitamente, ler a Bíblia como a história de Deus. [...] Deus não toma nenhuma atitude que não tenha o homem como seu objetivo. Não se trata nunca das "aventuras de Deus".

Deus, uma biografia
Jack Miles - Tradução de José Rubens Siqueira
Companhia das Letras, 1997


Deus como protagonista da Bíblia. Você nunca mais vai ler as Escrituras do mesmo jeito - ou melhor, você vai passar a ler a Bíblia para ver como este é o personagem mais rico da história da literatura. E o mais incompreendido também.