sexta-feira, agosto 31, 2007

Até que a morte...

Estava eu contando para uma amiga que, nos dias em que a faxineira vem ao apartamento dos meus pais eu não consigo trabalhar porque ela fala sem parar. E disse a ela que estava com saudades dos meus pais se engalfinhando em silêncio. "Ah? Explica, amiga". Então:

Minha mãe tá costurando na sala com tudo espalhado na mesa. Vem meu pai, estica o braço e empurra tudo prum canto só. Ela pára, olha e empurra de volta. Ele pega coisa por coisa e vai botando num canto. Ela vai botando de volta no lugar. Ele suspira, levanta e vai na cozinha. Ela volta a costurar. Ele acende um cigarro sabendo que a fumaça vai pra sala. Ela levanta com cara de nojo e abre a janela. Ele volta e abre o jornal por cima das coisas dela. Ela rapidamente começa a tirar as coisas de debaixo do jornal e vai botando num canto da mesa. Ele vai pegando e botando de volta no lugar onde estavam. Ela suspira, deixa a costura na mesa e vai pra outra sala. Ele abre o jornal todo pra ler em cima da mesa. Ela abre o janelão da sala. O vento carrega o jornal dele. Ele desiste e dobra o jornal e vai ler no quarto.

Só quem treina quase 50 anos consegue começar e terminar uma briga cheia de picuinhas e implicâncias no mais absoluto silêncio.